julho 07, 2004
Às vezes
Às vezes, cruzamo-nos cá por casa, um na banca a lavar a louça, outro a tirar o lixo do caixote para ir colocar lá em baixo, um a brincar com o miúdo no tapete da sala, e o outro a passar com o cesto da roupa suja para enfiar na máquina de lavar.
Ao jantar, comemos na mesma mesa, mas quase nunca ao mesmo tempo, porque é preciso encontrar o momento certo para levar uma garfada à boca, nos intervalos de cortar a comida em pedacinhos pequeninos para o miúdo, de segurar no prato dele para que não vá parar ao chão, de avisar “-Cuidado! Senta-te!” quando ele se levanta, de o convencer a comer, de lhe enfiar comida na boca, de apanhar as coisas que ele atira ao chão e depois pede, de bater palminhas e dizer Por-tu-gal, Por-tu-gal , de cantar e fazer a coreografia das galinhas doidas...
A maior parte das vezes, passamos um pelo outro como quem passa todos os dias por uma das mais bonitas ruas da sua velha cidade e só vê a fila de trânsito que o separa do semáforo, “Será que vai dar para eu passar da próxima vez? Anda lá, cabrão, arranca...”
Mas, pelo meio, há aquela vez em que andas no terraço com o miúdo, a montar os tubos do sistema de rega automático, e me entras pela cozinha, vestido com uma t-shirt branca do avesso, tão fininha e velhinha que adere ao teu corpo, ao teu peito, aos teus ombros, onde descansam as costuras viradas para fora, e a t-shirt já está um bocadinho suja, e tens bolhinhas pequeninas de suor na cara, e vens alegre e sorridente, e trazes os olhos a brilhar, e olho para ti e lembro-me que és mesmo bonito, e abraço-te e beijamo-nos e... enrolam-se uns bracinhos pequeninos à volta das nossas pernas.
Publicado por Encantada em julho 7, 2004 12:48 PM
Não sei como comentar este post sem dizer uma banalidade ou uma piroseira. Que lindo que está. E como eu te entendo!
:)
Até me vieram as lágrimas aos olhos.
Muito bonito, muito bem escrito.
Parabéns, por conseguir dar valor a esses momentos. É por nem todos, o sabermos fazer, que nem todos os bracinhos, têm a oportunidade de abraçar 4 pernas de uma vez!
Aproveita bem esses momentos, que esse tempo passa num instante... ai saudades!! ( a vantagem é que normalmente não somos interrompidos ;))
Até chorei, palavra!Os meus pais eram uma delícia, quando se encontravam na cozinha.Ele, então, era um "lamechão" dum beijoqueiro, meigo, meigo que só visto!Adorava apanhar a minha mãe distraída e...zás!...um ganda beijo, entre as reclamações da minha mãe ( ela adorava, mas fingia que não...rsss) e roubava-lhe uma batata frita...e mais um abraço... e então...no melhor da "festa"...entrava uma pimpolha que tb queria, que tb queria!...Que saudade!Adorei este bocadinho!Deus meu!Como adorei!
Encantada, adorei. E é muito verdade o que dizes. Os filhos, a casa, o trabalho ocupam-nos de tal maneira que por vezes nos esquecemos daquele que está sempre ao nosso lado e, sobretudo, esquecemo-nos de lhe dizer o quão importante é para nós.
Mil beijinhos mimados cheios de gelado de limão...
Aqui, transpira-se felicidade...;-)
Lindo, e tão verdadeiro... Beijo grande, Encantada. :-)
Sei o que isso é, mas nunca fizeram isso por mim. Contigo fizeram?
Mesmo ainda não tendo filhos, às vezes perco tempo e destraio-me com coisitas tão sem importância e quase esqueço de ter tempo para a pessoa maravilhosa q está ao meu lado.
De vez em quando é preciso esquecer o semáforo, sair do carro e passear um pouco a pé. ;)
O tempo que sobra é tão pouquinho não é?
Por vezes é assim: os dias a correr para as noites, no trabalho, nas compras, em casa. Histórias que se repetem em tantos casais. Saudades do tempo em que tínhamos mais tempo para namorar. Só namorar! E depois, esses bracinhos que nos apertam, que no meu caso são mais maozinhas que nos acarinham, ou um choro ao longe que começa, a chamar-nos à realidade doce e diferente de ter uma família.
O bom e o mau. O amor!
que texto lindissimo... adorei. beijinhos
Já não passava por aqui há uns tempos... Adorei. Percebo perfeitamente o que escreveste... Beijo. Mafalda
Que lindo!Fiquei até comovida!:)
Sabe tão bem ler palavras assim,...carregadas de emoção e amor. Continua assim...a fazer pausas para sentir. O Amor agradece.
Coisa bonita. Coisa bonita. Também tenho desses encontros. Também tenho desses encantos.
Obrigada por este pedacinho de ternura.
passados quase 7 dias, não resisto: por acaso não andam a praticar técnicas orientais? :)
(Gargalhada) Não, era bom era...
Andamos a corrigir exames!
E ainda dormir a horas diferentes, acordar à vez, partilhar o dia com dois ou três telefonemas. Chegar à noite tão cansados mas olhar para aqueles sorrisos lindos e pensar: Fomos nós que fizemos!
O teu post está magnífico. Diz tudo com tão pouco. Parabéns
Depois de tantos comentários já quase tudo está dito. Só acrescento que me deu saudades de muita coisa, não só o teu texto que adorei, mas os comentários que aqui foram deixando. Que consigas sempre manter esses encontros na cozinha, mesmo quando tens pilhas de exames na sala :)
olha que realmente... malvados exames. já me livrei dos meus. agora é só os trabalhos da formação. mas, diga-se, estão tão maus que não dão trabalho nenhum. bom trabalho.
:-) o Amor é lindo :-)